
Nossa natureza sonhadora


Uma carta da nossa casa
A Dra. Clarissa Pinkola Estés diz que os sonhos são uma carta escrita e enviada de um lugar profundo da nossa psique, que é o nosso verdadeiro lar. Essa “carta” revela o que ainda não conseguimos perceber conscientemente sobre nós mesmos, nossa vida e nosso estado psíquico atual. Os sonhos nos salvam da cegueira, da incapacidade de perceber coisas importantes. As histórias que os sonhos contam nos são evidentes durante o dia, mas nos são reveladas durante o descanso, quando sonhamos. Os solos podem trazer informações úteis para as nossas vidas. Segundo o Dr. Estés, um sonho pode, por exemplo, nos dar pistas codificadas que apontam para uma doença antes mesmo de sermos diagnosticados ou revelar as intenções e sentimentos de uma pessoa (ou de nós mesmos).
Uma forma possível de interpretar as mensagens de um sonho é começar por ter uma ideia geral do que está acontecendo, e depois olhar para a nossa própria vida e fazer a pergunta: “Onde isso está acontecendo na minha vida?” A ideia geral do que está acontecendo no sonho pode ser tão simples ou complexa quanto fizer sentido para você no momento. Alguns exemplos comuns: receber um presente, ser assaltado, encontrar algo escondido, sobrevoar uma situação, perder algo, parecer perdido, vulnerável, ser pego de surpresa, ser perseguido, encontrar um tesouro, dar à luz, etc. A partir dessa questão, procuramos paralelos subjetivos ou simbólicos em nossas próprias vidas. “O que eu poderia estar dando à luz agora?” “Em que sentido eu poderia estar sendo perseguido?” “”Na minha vida, o que poderia ser simbolizado por esse elemento?”
Segundo o Dr. Estés, sonhos recorrentes ou semelhantes indicam mensagens importantes que ignoramos ou que ainda não entendemos. Nestes casos, a mensagem retorna em sonhos semelhantes até que a “carta” seja recebida e aberta.
Estudo dos sonhos
Embora algumas pessoas acreditem que não sonham, a verdade é que todos nós temos entre 4 e 5 sonhos por noite. Os sonhos ocorrem durante a fase do sono conhecida como REM, fase marcada por alta ativação cerebral, que reverbera memórias com grande intensidade — em contraste com o repouso de ondas lentas, marcado por baixa atividade elétrica no cérebro. Todas as pessoas alternam entre essas fases de descanso, o que varia é que algumas pessoas se lembram dos seus sonhos e outras não. Nossa capacidade biológica de sonhar e lembrar dos sonhos se deve em grande parte a um hormônio chamado norepinefrina, responsável por criar memórias e estimular a atividade do corpo e da mente. A noradrenalina está presente no cérebro em níveis muito baixos durante a fase REM e, logo após acordarmos, os níveis desse hormônio no cérebro começam a subir. Devido a esse aumento, os primeiros momentos após acordar são os mais importantes para a lembrança dos sonhos. Outros fatores que podem impactar nossa capacidade de lembrar nossos sonhos incluem o uso de certos medicamentos, despertadores e o ritmo de trabalho, que nem sempre nos permite economizar tempo antes de acordar para registrar o que sonhamos durante a noite.


antes de dormir
Se possível, troque as lâmpadas de luz branca por amarelas e ative a opção sleep nas telas que você usa à noite, para permitir que a glândula pineal produza melatonina. Procure reduzir os estímulos e desligar aparelhos eletrônicos pelo menos uma hora antes de dormir. Deixe o celular fora do quarto e prefira um despertador suave que te acorde aos poucos. Ao deitar na cama, declare com firmeza sua intenção de sonhar: “Vou dormir profundamente, vou sonhar, vou acordar com vontade, vou lembrar o que sonhei e vou registrar. .”
Quando você acorda
Acordamos com apenas um pequeno vestígio de lembrança do sonho que estávamos tendo. Fique parado na cama por mais algum tempo, com a atenção voltada para a lembrança dos seus sonhos. Em vez de se levantar rapidamente para, digamos, conferir as mensagens que chegaram no seu celular, aproveite o aumento dos níveis de norepinefrina no cérebro, logo após acordar, para se concentrar em lembrar o que estava sonhando. Se você estiver na cama pensando em sonhos quando a norepinefrina chegar, você conseguirá reter mais detalhes.


registrar
Ainda na cama, anote as primeiras imagens, sentimentos ou detalhes do sonho que deseja lembrar, mesmo que pareçam irrelevantes ou sem sentido. Você pode escrever o sonho, primeiro, em palavras-chave e depois escrevê-lo em detalhes. Por fim, dê um título à palavra (o primeiro que vier à mente, como “o sonho da aranha”). Nomear o sonho será útil para identificar sua ideia central e encontrá-la facilmente na releitura. Relatar seus sonhos, a um diário ou a uma pessoa, é fundamental para aumentar suas chances de lembrá-los no futuro.Lendo sonhos antigos
Quando você olha para um sonho antigo e relaciona os eventos do sonho com o que estava acontecendo naquele momento, você está aprendendo a linguagem do seu próprio inconsciente. Muitas vezes não conseguimos decodificar nossos sonhos imediatamente, mas ao vê-los retrospectivamente é possível compreender com mais clareza suas mensagens. Leia seus sonhos passados para aprender como interpretar melhor seus sonhos futuros.
Este texto faz parte do Edição 2020 da Mandala Lunar 2020 Brasil
Texto: Mandala Lunar e Mariana Bandarra
Ilustrações: Julia Vargas (@jayacosmica)
Referências:
ESTES, Clarissa Pinkola. O guia para iniciantes na interpretação dos sonhos: descubra as riquezas ocultas dos seus sonhos – Áudio, 2003.
RIBEIRO, Sidarta. O Oráculo da Noite. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
RIBEIRO, Sidarta. Sonhos, ciência e consciência. Entrevistado por Bruno Torturra. Podcast do Estúdio Fluxo, São Paulo, 2019.